Tuesday, June 06, 2006

A Senhora com o Candeeiro

(POR: Demithri de Vitoriano)


“IYRT RZSKI DBS GOVIEPODOK GBUTZAJ RBZ ARLVMGVG WRSRPLGVS VIILA VSLEE KC FULVB SOUO VE CLBZNKYYH DVSUEAKC FNVI RZHRO WPRZ SJSW GBCOIDWW RZGVS USIHFUEK JEHBTEK FBT S WRSRPLG DOJXB”, última mensagem criptografada passada via telégrafo por uma tropa miúda de ingleses.

Guerra da Criméia, 1855. Hospital Militar Inglês.

Um som. Foi apenas isso.
Tudo aqui tem o fedor da morte, como se não pudéssemos reconhecê-la sob o disfarce inocente de todas as noites. As paredes em tom pastel, o teto alto, as colunas antigas - aqui sempre foi a casa da morte. O conforto distante enquanto definhamos tranqüilos e não podemos nem sentir a dor que nos trouxe - ela nos impelia vivos no campo de batalha, agora, nos condena em sua ausência seca: quem não sente dor pode estar vivo?
Minha cabeça pesa, cheia de um líquido escuro e viscoso que balança lá dentro e escorre pelo ouvido, sentir sem escutar... Tento erguer a cabeça e ver enquanto ela passeia por seu campo de cultivo, flores murchas, são elas que povoam o seu buquê predileto. A morte chega para todos, sempre e sem atraso - 20, 30, 40, até os coronéis de 50 anos, todos são flores de sua justiça meticulosa.
Os ingleses, como as rosas, também morrem.
Um suspiro e tudo se tinge de vermelho. O espaço fatiado por sons que apenas vejo, gemidos agudos saindo da boca do jovem a minha direita. Posso ver o seu grito espalhando-se pelo teto e pelas colunas, impregnando de tristeza o ambiente, uma tristeza violenta, porque consciente de que estará longe de sua terra quando ela vir buscá-lo hoje. Então, sua tristeza chega a mim como uma parede de som súbita, mais óleo escorre de meus ouvidos e consigo sentir o som de seu desespero penetrando minha pele e minha cabeça - é a primeira coisa que escuto em semanas - o som da danação de um irmão é simplesmente delicioso! Que ele sinta dor enquanto cortam as sobras de suas pernas e eu possa escutar cada fragmento de tecido partido e cada naco de sua humilhação.
É cruel. Eu sei. Como poderia ser diferente?
O jovem silencia, mas eu reconheço outros sons vibrando e o mundo volta a ter dimensões diversas, deixa de ser pintura para ser mundo, em carne e movimento.
Não sabemos aqui dentro se é noite ou dia - enquadrados em nossas camas brancas, mortalhas insípidas enquanto ela ri, segurando seu lampião fúnebre em sua mão direita - a morte caminha entre nós e ela traz uma luz amarela e pálida, a última que os vivos poderão tocar.
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Ela tem um nome, embora este nome seja apenas sussurrado pelos cantos. Todos a temem - afinal, ela põe ordem neste caos vermelho e pútrido. Sua disciplina é absoluta e ninguém questiona suas ordens - escolhe a vida e a leva como um presente delicado, deixando camas vazias para outros ocuparem e partirem mergulhados na sua luz reveladora.
Outro dia.
Não há luz aqui. Minha carne vibra debaixo dos lençóis brancos - são brancos mesmo? O ar pesado e parado aprisiona nossa vontade, amarrando-nos a estas camas estreitas, o enterro dos ainda vivos. Súbito um movimento abafado sacode o frio, ondulando pelas paredes e penetrando em nossos corpos. Ela caminha sem preocupações, vem devagar – o tempo lhe pertence. O inferno vomita com medo sua criatura mais demoníaca.
A morte caminha e ela traz a luz.
Rígida como um carvalho, seus movimentos sã precisos. Examina cada soldado com a meticulosidade dos que tem fome – descobrir a menor fissura no destino para escancarar os corpos com seus dentes amarelados. Ninguém respira diante de sua luz trêmula – o candeeiro é eterno (dizem que Deus lhe deu para enganar os vivos a buscarem seu colo frio e duro, se apagarmos ele, apagaremos a morte).
Ela vem em minha direção, roupas negras carregando a noite sobre o corpo velho e gasto. Com um chapéu branco sobre a cabeça pequena e grisalha, poderíamos até amar aqueles olhos maternos se não estivéssemos tomados pelo horror – essa é sua armadilha mais cruel.
O candeeiro que carrega divide seu rosto em duas metades desiguais – uma lúcida e tranqüila diante do brilho pálido de sua chama; a outra nebulosa e repulsiva, mergulha nas sombras de sua alma podre. A morte me encara e meu coração cessa de bater. Um meio sorriso enrugado brota de sua boca fina e esgarçada – eu gritaria se pudesse.
“Hoje ainda não, meu filho.”, ela diz e sua voz é doce e cortante como a de um pássaro noturno.
“Quando, então?”, eu pergunto com os olhos, não mais que isso.
Sua resposta é direta e tão tranqüila que eu me perco no desespero:
“Amanhã, meu filho. Amanhã é o seu dia”.
A senhora com o candeeiro atravessa o salão de corpos, hoje ela não levará ninguém, mas amanhã ela reclamará o que lhe é de direito – eu e tudo que eu poderia ser e não serei.
O hálito de Deus, um dia, apagará sua chama... Ergo minha boca, mas o teto é negro e o céu está distante demais. Trinco os dentes de pavor – olhando no vazio e procurando amparo onde só escuto silêncio. Ela se foi, deixando no ar sua presença como uma peste despedaçada! Meu corpo geme e pede para eu desistir, ela será minha – a minha morte. Um toco de lápis no espelho da cama, a palavra no escuro contra o branco-lavanda, não consigo parar de tremer, minha cabeça lateja diante do seu verbo... “Amanhã é o seu dia”. Todos os dias são os dias dela, a senhora com o candeeiro vem me buscar e te buscar.
A morte tem um nome: Nightingale, o pássaro noturno. E falar isso, pensar nisso, é decretar minha sentença e aceitar meu destino – Nightingale, o rouxinol. Com sua voz fria e densa, com seu corpo curvo e gasto, sua face de mãe e de demônio, seu candeeiro iluminando a noite para apagar a vida. Não vou esperar você aqui! Vou fugir, vou me libertar de suas garras meigas e poderosas – Florence Nightingale, a morte viva flutuando diante de mim. Não mais, nem amanhã, nem nunca.
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O último parágrafo foi rabiscado num lençol branco no Hospital inglês em Escutária, quando da Guerra da Criméia (1854-1856). A cama era de John Preston, soldado do 101º batalhão da Real Força Britânica, em 22 de Maio de 1855, John foi encontrado embaixo de sua camada, sufocado com pedaços de pano que ele mesmo cortou e enfiou em sua boca e ouvidos. Tinha 21 anos de idade, um dia antes de receber alta e partir para seu país, onde sua noiva lhe esperava, grávida de um filho que ele desconhecia.
Florence Nightingale (1820-1910), a senhora com o candeeiro ou o pássaro, carinhosamente apelidada pelos soldados ingleses gratos pelo seu trabalho na reforma e higienização dos hospitais ingleses na Guerra da Criméia e após ela, é uma das figuras centrais da medicina ingleses, chefiando as enfermeiras e criando um sistema hospitalar pautado na disciplina rígida da alimentação, medicação e higiene, conseguiu reduzir em 90% as mortes por infecção hospitalar nas instituições que liderou, morreu cega, sem querer ver a família e sem aceitar as honrarias de Estado feitas a sua pessoa.
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A CIFRA DE VIGENÈRE - Chave: Senhora
FIM

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